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LÉO PAJEÚ
Poesias e Contos, Sentimentos e Versos, Sonhos e Visões de um Premonitor.
Textos


PERDIDO PELO CAMINHO

 
         A tarde chegava ao fim e o grande pé de juazeiro cada vez mais recebia gente em volta de seu tronco, àquele verde chamava atenção, pois quem olhasse em volta só ia encontrar seca, a vegetação parecia não existir mais, poucas árvores e as que tinham estavam secas. A poeira leve que levantava às vezes, apenas quando aparecia uma ligeira brisa e fazia com que elevasse um pouco de pó da terra seca esturricada do sertão.
          O pé de juazeiro se preservava verde, se tornando uma referência na travessia de balsa daquele rio imenso, incrível, mas como que poderia existir um rio tão grande e haver tanta seca bem perto de suas margens. Outra coisa espantosa era o povo do sertão fugir da seca que já duravam três anos sem uma direção definida a uma cidade, todo mundo ia para o sul.
         Quando o sol deixou apenas uma barra encarnada no horizonte se despedindo do dia, um velho oriundo da região se juntou as pessoas que estavam embaixo do grande pé de juá, algumas crianças o cercaram como se já conhece ou soubesse de sua intenção, contar estórias e histórias do povo que passava ali há décadas.
         Como de costume o velho com as mãos limpas, sem abrir um livro começa a contar uma de suas histórias, mas essa era inédita ninguém ainda tinha ouvido, então as crianças tinham que prestar atenção, pois além de ser uma história verdadeira nela continha uma grande lição de vida.
     - Crianças prestem atenção. – Diz o velho se sentando num tamborete de madeira de lei desmontável. – Esta é uma história muito bonita, mas sofrida, então não contenha as lágrimas. – complementa o velho com sua voz grave e altiva.
     ...Bem crianças aqui passa muita gente, fugindo da seca e da miséria desse sertão esturricado, teve um dia que aqui passou muita gente e no meio dessa gente muitas crianças, uma Senhora passava aqui com seus filhos, eram tantos que eu nem sei quantos, sei que ia encontrar seu marido lá pelas bandas do sul o qual o cidadão tinha ido tentar a sorte, só não sei em que cidade ele tinha ido, pois para as bandas de lá tem muitas cidades que nunca fui, mas muitos viajantes que passaram por aqui pra lá e pra cá me disseram.
          Nesse dia tudo estava muito avexado, uns corriam pra lá outros pra cá, nem sei por que, mas as coisas pareciam muito agoniadas. Esta Senhora veio pela balsa e foi colocando seus filhos um a um aqui para conferir, não dava pra saber, mas parece que tinhas alguns gêmeos, por que eram tantos. Na agonia uns pediam comida, outros pediam para ir ao mato fazer necessidades, a Senhora não tinha como controlar todos, mas os que queriam ir ao mato foram fazer suas necessidades e voltavam mais calmos.
          A noite passou rápido e pela manhã tudo tinha que estar pronto, pois o pau-de-arara já estava fumegando pelo seu cano preto aguardando quem ia partir para o sul. A Senhora mais que rápida junta toda a filharada e mesmo antes de contar o motorista do pau-de-arara já lhe alerta:
     - Temos que ir minha Senhora? Depois a Senhora conta seus meninos.
     - Mas não pode esperar nem um pouquinho, esse menino? – Diz a Senhora meio aflita tentando convencer o motorista do pau-de-arara que parecia avexado.
     - Não? Não posso. – Diz o motorista do pau-de-arara com rigor na voz.
         Com pressa a Senhora vai colocando as crianças no pau-de-arara sem contar, mesmo que contasse não ia saber, pois sua contagem era por reconhecimento e não por número, era analfabeta. Os meninos se amontoavam na careceria do pau-de-arara e o motorista ia saindo bem devagar rumo ao grande estradão empoeirado do sul. Esse dia seria de muita viagem sem parar, o motorista tinha que chegar logo, pois já tinha outra viagem para fazer quando voltasse. A poeira foi ganhando volume e aos poucos encobriu o pau-de-arara que ia desembestado rumo ao sul.
         De cócoras e com o short feito de pano de saco de algodão abaixado, Zé-maria olhava por baixo para vê se o cocô tinha saído nada tinha ali no chão. Zé-maria agoniado só pensava no pau-de-arara que ia sair cedo. Demorou mais Zé-maria se aliviou, mas que depressa se limpa com folhas seca e vai saindo rápido ajeitando o short enquanto corre em meio à caatinga, um espinho de mandacaru lhe fura o dedo do pé e mesmo sentindo dor não desiste de chegar logo ao grande pé de juazeiro para se juntar aos seus irmãos e partir para o sul.
         Para sua surpresa ao chegar perto do grande juazeiro não tinha mais ninguém ali, nem poeira do pau-de-arara tinha mais no estradão. Com raiva e desespero Zé-maria começou a chorar, olhava para todos os lados e não via ninguém, aquela manhã com o sol quente nem sibito tinha por ali, não se ouvia um piar de passarinho.
         Agora Zé-maria não tinha o que fazer a não ser tentar seguir em frente, era a única e pura razão, para trás apenas o imenso rio e a sua frente uma grande e empoeirado estradona. Sem pensar muito Zé-maria começou a caminhar seguindo aquela estrada longa, depois de muito caminhar, cansado e com fome olhou para um lado e para o outro da caatinga que acompanhava a grande estrada e viu um pé de umbu ainda não muito grande, logo pensou, é ali que vou encontrar alguma coisa pra comer e beber.
         Zé-maria chegou debaixo do pé de umbu e foi logo procurando algumas folhas dos galhos mais baixos, após comer algumas começou a procurar uma de suas raízes, sabendo que ali poderia encontrar uma batata de umbu que contém água para matar sua sede e o sumo para tentar sobreviver por aquele dia, apesar do gosto não ser muito bom. Após saciar-se Zé-maria começou a pensar, o medo veio forte agoniando seu peito e aumentando sua respiração, como sobreviver ali perdido naquele sertão tão imenso e sem quase ninguém por perto.
         Ao olhar para um lado e para o outro do horizonte vazio intenso, Zé-maria viu toda sua coragem ir embora e sem intenção de voltar tão cedo. Alguma cigarra ou um grilo tentava cantar, mas o tempo estava tão quente que os desanimavam, perto dali em um lajedo com poucas pedras um calango bem pequeno tentava correr atrás de outro que por sentir tanto de calor nem se mexia do lugar, a brincadeira ficava sem graça.
         Zé-maria estava desolado ao apreciar a paisagem em sua volta e só vê tudo seco e quase sem vida, um momento de desespero lhe faz gerar uma única lágrima em seus olhos seco e empoeirado que fez um caminho ao cruzar seu rosto, mas sem chegar a cair no chão por causa do clima tão seco que a secava durante o percurso.
         Sua decisão tinha que ser cumprida, não podia desanimar mesmo sozinho naquela caatinga. Zé-maria dar sua última olhada para trás e fica algum tempo parado olhando para frente, na certeza se partia para sua desconhecida missão.
         Bem devagar Zé-maria começou a andar, seus pequenos pés calçados com um par de alpargatas surradas levantou a poeira fina deixada na estrada pelos paus-de-arara que passavam por ali de vez em quando. Com a mão direita ajeitou sua camisa que muita curta não cobre sua barriga quase vazia, com a outra segurou seu short de saco de algodão e foi em frente.
         Depois de caminhar muito Zé-maria viu ao longe, quase no fim da estrada uma grande poeira, parou e começou a observar tentando entender e qual seria sua reação, logo pensou, será que é o pau-de-arara que voltou para me pegar, ou algum outro voltando do sul, pensou com calma apesar de sua pouca idade, poucas horas sozinho já tinha que tomar uma decisão importante, se não pensasse logo poderia correr risco. Zé-maria com instinto de sobrevivência saiu do meio da estrada e foi para sua margem se escondendo por trás de um pé palma com cuidado para não se espinhar.
         Após aguardar alguns minutos uma rural começou a parar bem devagar justamente onde ele estava antes de sair da estrada, com os olhos bem abertos esperou alguém sair da rural velha, depois que a poeira se assentou o barulho da porta se abrindo foi ouvido lhe deixando mais atento.
         Um homem meio esquisito desceu da velha rural e começou a olhar de um lado para outro, com um gesto comum colocou a mão direita em seu rosto e depois passou pelo o cabelo até atrás do pescoço, olhou novamente para um lado e para outro e voltou para dentro da velha rural. Dentro da rural ainda olhou para todos os lados como se procurasse alguém ou estivesse em dúvida do que tinha visto.
        Sem esperar qual era a decisão do homem esquisito da rural Zé-maria começou a correr caatinga adentro sem olhar para trás, desviava dos espinhos dos mandacarus e palmas e seguia em frente. Após perceber que correu o bastante Zé-maria parou meio sufocante pelo o calor e a poeira que fez na corrida. Não ouviu mas barulho da porta ou do motor da rural, então ficou mais calmo e segurou num galho de marmeleiro enquanto recuperava o folego.
          Se sentindo seguro Zé-maria começou a pensar em alguma estratégia para não correr perigo durante sua viagem, sem perceber nada em volta senta-se num troco velho de árvore e descansa um pouco mais. Quando retornou seus sentidos percebeu que não estava sozinho, havia alguém ali por perto, mas em que lado, estava com tanto medo que não tinha coragem de olhar para os lados, logo percebeu que tinha que fazer isso de qualquer forma, então olhou para o lado esquerdo e não tinha ninguém, mas seu instinto lhe avisava que tinha alguém por perto.
         Ao olhar para lado direito observou que tinha algo muito grande em sua frente, a luz do sol forte ofuscava a visão lhe causando muito medo, foi erguendo a mão trêmula até sua testa para tentar conter a luz do sol e vê melhor quem estava a sua frente, para sua surpresa era um cavalo alazão não muito forte todo arreado com couro de boi parado com cabeça erguida, mas suas rédeas estendidas denunciava que tinha alguém segurando a sua frente.
           Zé-maria viu seu coração bater tanto que perecia tentar sair de seu peito, mas agora não tinha o que fazer, tinha que enfrentar quem estivesse ali, novamente com sua mão bloqueou a luz do sol e desviou o olhar para o fim daquelas rédeas de couro de boi. A sombra de um homem o fez ficar estático, todo vestido de gibão e calça de couro, com um chapéu também de couro, logo se lembrou de seu pai quando ainda morava no sertão. O silêncio foi interrompido:
     - O que você faz aqui menino, perdido na caatinga? – Diz o homem com voz altiva e rouca.
     - Eu me perdi do pau-de-arara que ia para o sul seu moço. – Responde Zé-maria com voz trêmula de medo.
     - Como um pai pode deixar seu filho perdido pela estrada e pelo mato, sou vaqueiro e nunca deixo uma rês da fazenda para trás, isso não tá certo. – Diz o Vaqueiro com voz calma.
     - Não foi meu pai, eu estava com minha mãe e meus outros irmãos, mas não foi ela que me deixou moço, eu sabia que tinha que ir cedo, mas uma dor de barriga me fez ir para o mato fazer cocô e quando sai do mato o pau-de-arara já tinha partido me deixando aqui, tenho muitos irmãos e acho que minha mãe ainda não percebeu que fiquei para trás, nem sei vai se lembrar. – Diz Zé-maria choramingando.
     - Menino eu tenho que procurar uma vaca que está perto de parir e se embrenhou na caatinga, não poço deixar uma rês de meu patrão morrer, é minha obrigação de vaqueiro, agora preste atenção, se vai atrás de sua mãe pelo estradão, não ande por ela, nem no meio da caatinga, fique bem a margem, perto da estrada e quase dentro da caatinga. Isso vai lhe garantir proteção, na estrada tem gente muito ruim e dentro da caatinga tem animais muito perigosos, se você ficar a margem, se manter bem escondido vai sobreviver dos dois problemas, mas se não fizer pode correr risco entendeu bem. – Alerta o Vaqueiro tentando proteger Zé-maria das coisas ruins que pode acontecer durante sua jornada.
          Se despedindo apenas com um olhar o Vaqueiro monta em seu cavalo alazão todo arreado e se embrenha na caatinga seca deixando Zé-maria com os avisos e a preocupação com sua jornada rumo ao sul. Zé-maria apenas acena com sua pequena mão dando adeus ao amigo tão breve. Com um jeito de desânimo volta-se para a direção que veio correndo e começa a andar, agora com um conhecimento a mais, seguir seu caminho à margem da estrada para não correr perigo.

 
Léo Pajeú
Enviado por Léo Pajeú em 26/07/2013
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