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LÉO PAJEÚ
Poesias e Contos, Sentimentos e Versos, Sonhos e Visões de um Premonitor.
Textos


A APARIÇÃO DE NOSSA SENHORA
 
 
         A seca já perdurava por muito tempo, a paisagem da caatinga tinha ganhado uma efígie que muitos ainda não tinham visto em tempos passados, o pouco de talos de avelóz que ainda se mantinha verde na copa dos pés era cortado para alimentar algumas cabras e bodes que de tão magros não dava para abater, pois estavam só o couro e o osso.
          O por do sol que fazia parte daquela paisagem colorindo o sertão com cores quentes deixava a noite se aproximar lentamente. A estrela d’alva piscava no céu avisando que iria ajudar a lua a clarear o sertão naquela noite, pareciam que não davam trégua ao sertanejo, e as noites ficavam mais claras.
          Dona Maria chamou seus filhos para dormirem, já era tarde da noite e nem uma nuvem no céu aparecia para alegrá-los, seus olhares estavam tristes, pois aguardavam a chuva com ansiedade e nem um sinal.
          Na madrugada ouve-se um grito, era um grito de alegria, Dona Maria acordava todo mundo, acreditava que a chuva estava chegando, um cheiro peculiar da chuva trazido pelo vento invadia a velha casa, esse odor sentido por todos naquele sertão anunciava a chuva.
     - Meninos peguem as latas, coloquem nas goteiras, ainda hoje a noite vai chover, venham logo, peguem todas que puderem. – Gritava Dona Maria enquanto incentivava os meninos a andarem rápidos, era comum juntar água da chuva para lavar as vasilhas e outras coisas.
          A noite seguiu e nada de chuva, mas todos comprovaram que o cheiro de chuva era forte, dava para sentir uma leve brisa no rosto. O horizonte era vigiado por todos, mas nem um relâmpago riscava o céu para avisar que a chuva se aproximava.
          Dona Maria ficava ali, junto a todos, rezava e dizia com convicção:
     - A chuva ta ai por perto, to sentido que ela vai chegar ainda essa noite.
     - Mãe, será que ela vem mesmo, to com muito sono e vou é dormir, se ela chagar a senhora me chama viu. – Diz Ciço com um jeito sonolento.
     - Ta bom meu filho, vai dormir, se começar a chover eu vou fazer uma festa, você vai acordar com tanto rebuliço. – Diz Dona Maria com um sorriso tímido.
          Depois de certo tempo, os sete filhos estavam dormindo, o sono e o cansaço os faziam cair na cama de colchão de capim. Dona Maria permanecia ali, observando o céu na expectativa de começar a chover logo, logo.
         Amanheceu e nada de chuva. Dona Maria meio sonolenta ajeitava no fogão de lenha umas broas e um café ralo para amenizar a fome dos filhos que começavam a acordar.
         Num gesto comum Dona Maria saiu até o terreiro, colocou a mão na testa para encobrir os olhos da luz do sol e olhou para o céu e depois para o horizonte tentando achar alguma nuvem, mas nenhuma aparecia ou dava o ar da graça naquele momento.
          Sem perder a esperança Dona Maria volta até o velho fogão de lenha e fala para seus filhos:
     - Não vamos perder a esperança, vamos aguardar com fé que minha Nossa Senhora vai mandar chuva, nossas rezas e novenas nunca foram em vão, sei que essa seca ta grande, mas nossa fé é maior, vai cair chuva, sei que vai.
     - Sei não mãe, já faz tanto tempo que não chove, que nem sei como é a chuva, toda noite aparece em meus sonhos, mas fico só olhando, não é como antes que a gente ia prá chuva se banhar e brincar, eu acho que ela não vem mais não. – Diz Ciço, o filho mais velho expressando um olhar de pesar.
     - Meu filho não carece de chorar com isso não, sei que Nossa Senhora olha por nós, ela vai mandar chuva, pode acreditar. – Diz Dona Maria enquanto acaricia seu filho que começa a marejar os olhos.
     - Vamo acabar logo com isso e vamo logo pra roça, nós tem que preparar a terra, minha mãe tem razão, Nosso senhora não vai faiar. – Diz Luis tentando alegrar os irmãos.
     - Tem razão meu fio, temo que tê fé, Nosso Senhora num faia, toda vez que nós hora pra ela, ela faz nosso pedido, num é dessa vez que vai faiar. – Diz Dona Maria encobrindo os olhos já marejando e com o coração apertado de tanto de ver os filhos daquele jeito.
     - Então vamo logo, dessa vez só vai eu, Luis e Rosa, o resto fica ai prá ajudar nossa mãe. – Diz Ciço assumindo o papel do homem da casa, pois seu pai tinha morrido num ataque de um boi raivoso que o matou com o chifre afiado enquanto lidava como vaqueiro da fazenda vizinha.
          Dona Maria se despediu dos filhos e ficou observando enquanto eles desciam até a baixada, local de plantação de milho, feijão, jerimum, melancia e melão. Depois de um aceno final voltou para o velho fogão de lenha, pois o dia estava apenas começando, tinha muito que fazer.
         Ciço, Luis e Rosa seguem caminhando em direção a baixada. Luis e Ciço com suas enxadas nas costas, enquanto Rosa leva num saco algumas sementes de milho e feijão para plantar acreditando que a chuva ia chegar logo.
         Ao se aproximarem do poço do riacho que por falta de chuva tinha secado, só restando um pouco de lama na parte mais funda. Observaram que havia uma leve neblina envolvendo os pés de ingá que ficavam a margem do poço do riacho.
         O poço do riacho estava encoberto pela neblina, dificultando uma visão precisa, os pés de ingá deixavam apenas alguns galhos a mostra, o resto estavam envolvidos na neblina que naquela época e local era um fenômeno.
          Ciço parou e começou a observar melhor, achando estranha aquela neblina naquela hora do dia, pois o dia no sertão começa cedo e o sol já ardia e mostrava toda vegetação seca do lugar.
         Luis foi andando por outro lado admirando aquele fenômeno, desde então nunca tinha visto, só ouvido falar, mas nunca tinha visto de perto uma neblina daquele jeito, envolvia os pés de ingá e o poço do riacho, nada mais.
        Como os mais velhos dos filhos de Dona Maria, Ciço e Luis começaram a achar estranho, ouvia os mais antigos comentarem sobre a neblina, mas nunca tinha presenciado uma, e mais, numa época de seca que nem chuva tinha caído ainda, ai que ficou estranho.
          Ao se afastarem de Rosa enquanto observam o fenômeno não perceberam que sua reação estava assustadora. Rosa olhava para o pé de ingá mais alto com um olhar assustoso. Sua reação era extrema, parecia ter visto algo sobrenatural.
        Quando Ciço percebeu que Rosa estava assustada com alguma coisa que via num pé de ingá chamou Luis:
     - Luis, venha cá! Acho que Rosa viu alguma coisa, olha só como ela ta assustada, parece que viu inté assombração.
     - Deixa de conversa Ciço, isso é coisa de falar, vamos logo vê o que ta acontecendo com nossa irmã. – Diz Luis tentando deixar Ciço sem graça.
          Os dois se aproximam de Rosa, que não muda seu olhar de assustada e com um gesto apontando o dedo indicador e fala:
     - Olha ali Nossa senhora!
     - Aonde! Que conversa é essa Rosa, ta vendo coisa é? – Diz Ciço sem acreditar em Rosa que continua apontando para o pé de ingá.
     - Eu to vendo! – Diz Luis assustado com a imagem que aparece sobre o grande galho de ingá, perto da copa.
     - Eu não to vendo nada! O que vocês tão vendo, pode me falar? – Diz Ciço ainda duvidando dos irmãos.
     - É Nossa senhora Ciço! Ela ta lá no galho de ingá. Ela chega a balançar o galho com o peso dela, olha lá! – Diz Luis com convicção.
     - Você ainda num ta vendo Ciço, olha lá no galho, tem um luz lá, chega fica claro com a neblina, olha direito, lá naquela luz, olha só. – Diz Rosa apontando o dedo para a direção em que a luz aparece clareando a neblina que circunda o pé de ingá.
         Depois de olhar criteriosamente para onde Rosa aponta o dedo, Ciço abismado também ver a imagem de Nossa Senhora que permanece sobre o galho de ingá envolvida pela neblina. A luz que a envolve e bem suave, apenas clareia a imagem revelando sua beleza.
         Numa reação incrível Ciço pega nos braços de seus irmãos e começa a correr na direção de sua casa. Enquanto correm Rosa e Luis não deixam de se voltar para trás na tentativa de ainda ver Nossa Senhora no galho da ingazeira.
          Com a aproximação dos três numa correria só, os cães que estavam pelo terreiro da velha casa se assustam e começam a latir sem parar. Algumas galinhas que ciscam por perto também saem em disparada, todos os bichos parecem assustados com a correria que os três irmãos fazem na direção da casa.
         Ao chegaram ao terreiro da casa Dona Maria vendo o reboliço dos bichos sai pra ver o que é que é. Quando ganha a saída da porta observa que seus três filhos estão parados, assustados e cansados de correr. Na tentativa de saber o que é, Dona Maria fala:
     - O que aconteceu? Por que estão tão assustados, parece que viram alguma assombração? – Diz Dona Maria estranhando a atitude dos filhos.
         Ciço ainda tentando recobrar sua respiração fala com dificuldade:
     - Mãe tem uma Nossa Senhora lá na baixada, no poço do riacho, num pé de ingá.
     - Que estória é essa meu filho? O que você ta dizendo? – Diz Dona Maria expressando uma reação de medo.
     - Tem mesmo mãe? Nós vimos lá no pé de ingá, tem uma Nossa Senhora igualzinha aquela lá da igreja, aquela que vai pra romaria prá pedir pra chover. – Diz Luis confirmando o que Ciço disse.
    - É verdade mãe? Eu que vi primeiro, depois mostrei prós meninos, Ciço viu por último, mas ela tava lá, bonitinha, igualzinho a da igreja. – Diz Rosa também confirmando o que seus irmãos disseram.
     - Então vamos lá que quero ver se isso é verdade? – Diz Dona Maria já caminhando em direção a baixada.
         Numa caminhada só Dona Maria e seus filhos chegam aos pés de ingá a margem do poço do riacho. Apenas uma leve neblina ainda envolvia os pés de ingá, nada mais.
          Dona Maria ainda queria duvidar, mas seus três filhos afirmavam com clareza o que viram. Diante do pé de ingá ainda envolvido com um pouco de neblina, coisa rara naquele tempo de seca, Dona Maria se ajoelha, seus filhos vão um a um também seguindo seu gesto. Aquela cena poderia causar comoção em qualquer um, mas todos começaram a rezar em voz baixa como se recebessem algum sinal para isso. A neblina foi ganhando o céu começando a formar uma pequena nuvem.
         O cheiro da chuva começou a aparecer ganhando todo o roçado e a caatinga. O vento foi ficando mais forte, as árvores pareciam ganhar alegria balançando os galhos ainda sem folhas, alguns pássaros apareciam e começavam a cantar, era um canto de alegria, tudo parecia renovar a esperança e que depois de tanto tempo a chuva ia voltar para o sertão.
         Passaram-se os dias e no terceiro dia ainda sem chover ouve-se o comentário que Nossa Senhora apareceu novamente na Baixa Grande, uma pequena vila vizinha. Passaram-se os dias e no quinto dia ouve-se o comentário novamente que Nossa Senhora apareceu da mesma forma, agora na Fazenda das Canafistas. Passaram-se os dias e no sétimo dia começou a chover, era uma chuva leve e duradoura, dava para aparar a água da chuva nas goteiras da velha casa, os pássaros tomavam banho, assim como todos os seres vivos do sertão, dava para perceber que era uma chuva abençoada, sem trovões, sem relâmpagos. No dia seguinte deu pra ver que a água tinha lavado toda alma viva do sertão e deixado a terra pronta para o plantio. O verde começou a aparecer e mudar a cor do sertão.
 
 
Este conto é baseado em um fato real, mas duvidado por muitos que não acreditam nas histórias de crianças e jovens que em suas angustias vêem além do mundo real. Os personagens são fictícios.
Léo Pajeú
Enviado por Léo Pajeú em 20/12/2014
Alterado em 20/12/2014
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