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Antigamente, as pessoas viajavam de livro. Entravam na cabine das páginas, acomodavam-se na poltrona do parágrafo e aceitavam o destino que o autor escolhesse, fosse ele uma planície russa gelada ou as curvas de um rio no sertão. O leitor era, antes de tudo, um viajante. Deixava-se perder. Hoje, quando abrimos um livro em sala de aula ou nos clubes de leitura hiper conectados, não nos dão uma passagem; dão-nos um bisturi, uma lupa e um manual de instruções.
O ensino da literatura cometeu o crime de prender o pássaro para explicar a anatomia das asas. Sabemos tudo sobre a estrutura do ninho, o contexto socioeconômico da árvore e a métrica do canto. Mas o bicho não voa mais. Ficou estático, empalhado no museu da obrigatoriedade.
"Analise o subtexto", diz o comando da questão. "Identifique o nicho de mercado", dita o algoritmo da livraria. E o leitor, coitado, pressionado a ser um crítico precoce, franze o cenho, faz anotações à margem e procura a metáfora oculta como quem procura uma falha no motor do carro. Lê-se com desconfiança, com pressa de emitir um parecer técnico no tribunal das redes sociais.
O prazer foi burocratizado. O leitor moderno não tem mais tempo para a dúvida, para o silêncio que fica flutuando na sala após o término de um capítulo. Ele precisa classificar, rotular e arquivar. Esqueceram de nos ensinar o mais importante: o modo de ler. Não o modo de dissecar, mas o modo de escutar. Ler deveria ser o direito de olhar para o horizonte do texto e ver o mundo se expandir, e não o dever de bater o ponto na última página para garantir uma nota ou um comentário inteligente.

OS SINAIS?