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O CONTO: O LEGADO DE LUZ NAS PEGADAS DE PRINCESA
Uma história de dor, amor e o legado de uma guerreira
A entrada da loja Agronorte sempre foi um lugar de movimento constante. Pedestres, Ciclistas, Motos, Carros e Caminhões roncavam descarregando sacos de rações, adubos, produtos para pets, sementes e produtos agropecuários, além do entre e sai de pets para o banho e tosa, clientes entravam e saíam discutindo, os preços, as compras, a colheita, e o cheiro de terra fresca e ração misturava-se no ar da manhã. Era um cenário puramente humano, focado na rotina dura do trabalho. Até o dia em que ela chegou.
Sua aparição não teve alarde. Chegou de mansinho, com as costelas marcadas pela escassez das ruas e as orelhas caídas, carregando uma timidez que parecia pedir desculpas por existir. No início, observava tudo de longe, encolhida sob a sombra de um dos balcões externos. Mas havia algo em seu olhar, uma mistura profunda de doçura e uma lealdade latente, que tornava impossível ignorá-la. Em poucos dias, os funcionários começaram a partilhar rações de diversas marcas, e ela não rejeitava nenhuma, não estava para aprovar marcas, mas sim para sanar sua fome e sua sede; em poucos dias, ela já corria para a entrada sempre que eu chegava e começava a abrir as portas da loja, sempre chegava de mansinho, sentava e aguardava que eu tomasse todas as providências, arrumasse a entrada da loja com alguns produtos para chamar atenção de clientes, quando um carro conhecido estacionava, ela recebia os clientes abanando o rabo e sorrindo, isso mesmo, sorrindo? Em uma gratidão sem limites.
Ali, ela deixou de ser uma desconhecida. Recebeu o nome de Princesa. E nenhuma realeza jamais carregou seu título com tanta dignidade. Princesa adotou a loja e todos os que nela trabalhavam como sua verdadeira família. Ela ensinava, sem emitir um único som, sobre a pureza do amor verdadeiro. Sua presença transformou o ambiente cinzento do comércio em um lugar mais quente e acolhedor. Qualquer cliente que a conhecia notava sua pureza.
O tempo, contudo, revelou-se um sopro injustamente curto. O mundo exterior, muitas vezes indiferente e cruel com os inocentes, deixou marcas profundas na pequena guerreira. Princesa enfrentou suas batalhas em silêncio, demonstrando uma coragem gigante dentro de seu corpo franzino, estava prenha, carregava em sua barriga quatro filhotes, e isso notamos todas as vezes que ela se alimentava das rações que dávamos e da água que ela bebia com abundância, depois seguia seu destino em direção ao Cinzeiro na Praça do Laço em Brazlândia, um local que foi isolada pela a Administração local, no qual era usado por alguns jovens da cidade em disputas de rimas de um projeto de Hip Hopp.
Em consequência de sua prenhez, eu a segui uma vez, e outra funcionária também fez o mesmo, já desconfiávamos que ela poderia pari seus filhotes dentro do Cinzeiro, isso poderia dificultar o resgate dela e suas crias. Isso foi comprovando logo em seguida, Princesa apareceu com a barriga vazia e seus peitos expostos, como se estivesse amamentando, entre três e quatro filhotes. Aumentamos a quantidade de rações e a qualidade, queríamos que ela produzisse um leite de propriedade para seus filhotes, e os dias seguiram, com suas idas e vinda a loja. Notávamos, que mesmo quando as forças lhe faltavam, seus olhos ainda buscavam os rostos amigos, derramando o resto de amor que guardava no peito.
Mas, em uma manhã seguinte, Princesa não apareceu para fazer sua refeição, eu fiquei preocupado, comecei a procura-la pela vizinhança, fui até o Cinzeiro, na praça e, não a encontrei, a funcionária chegou e também se encheu de preocupação, ela já estava mais conectada com Princesa, era amor à primeira vista. Não desisti, e após uma volta, descobri por um lojista da esquina, que uma cachorrinha tinha sido atropelada, aquela notícia foi um choque, eu não queria acreditar que fosse Princesa, também não queria levar essa notícia para a loja, onde todas já amava essa cachorra. Há um cruzamento nessa esquina, e possivelmente ela saiu a noite para procurar comida ou água, e algum motorista sem noção a atropelou. O jovem funcionário da loja confirmou, ela realmente tinha sido atropelada e, ele a enterrou em um terreno próximo ao Cinzeiro, perto de alguns formigueiros que lá existem.
Naquele momento eu não queria está ali, não queria levar essa notícia para a loja Agronorte, mas deveria fazê-lo, isso era um compromisso. No percurso até a loja eu pensei, devemos vasculhar o Cinzeiro, temos que encontrar as crias de Princesa. O dia foi intenso, e não encontramos formas legais de abrir o Cinzeiro para verificar se havia os filhotes de Princesa. Mas insistimos e a Funcionária Lorena acionou o Corpo de Bombeiros da Cidade, a noite chegava e não poderíamos deixar esses filhotes com fome e sozinhos no Cinzeiro. Felizmente depois de muitas conversas e insistência os Bombeiros decidiram arrombar a abertura do Cinzeiro para verificar se havia filhotes, um bombeiro e uma bombeira entraram e, em seguida voltaram com quatro filhotes nas mãos, todo a trama do dia se resumia nessa ação, que salvou quatro filhotes na Praça do Cinzeiro.
Quando Princesa partiu, o silêncio na Agronorte foi ensurdecedor. A dor da perda apertou o peito de cada um que foi tocado por sua luz. Mas o destino, em sua misteriosa forma de equilibrar a vida, não permitiu que a história terminasse ali. Antes de se despedir e virar uma estrela no céu, a Princesa deixou um tesouro na Terra: seus filhotinhos.
Eles nasceram com a mesma doçura no olhar e a mesma promessa de lealdade. Eram a continuação viva daquela que tanto amamos. Agora, a dor da ausência de Princesa transforma-se em uma missão de amor. Aqueles pequenos anjos merecem conhecer o que o mundo negou à sua mãe no início de tudo: a segurança de um teto, o calor de um afago sincero e a paz de um lar definitivo.
E, se em uma noite qualquer, ao passar pelo Cinzeiro você escutar um latido suave e, notar uma leve bruma se movimentar nas sombras da Praça, não tenha medo, Princesa ainda circula por ali, não carregando o medo, mas toda a leveza do amor que plantou em nós.
ADOTE. AME. CUIDE.
A história da Princesa não terminou. Ela continua viva em cada vida que escolhemos
proteger. Seja o herói que os filhotinhos dela tanto precisam e dê a eles o futuro que nossa
eterna guerreira sempre sonhou.
O SONETO EM HOMENAGEM À PRINCESA
Chegaste de mansinho, ó flor da estrada,
Cachorrinha sem nome e sem destino,
E na Agronorte, em gesto puro e fino,
Fizeste da virtude tua morada.
Olhar doce de luz tão densa e amada,
Escreveste um afeto peregrino;
Teu tempo foi um sopro pequenino,
Mas tua alma ficou perpetuada.
O mundo foi cruel com teu vigor,
Porém a tua luz não se consome,
Pois transmuta-se a dor em pleno amor.
A tua herança agora em nós habita:
Nos teus filhotes o teu olhar tem nome...
Quem ama acolhe, salva, adota e cuida!