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O Forno e o Vazio
No alto do poste de alta tensão,
um arquiteto de bico e penas
calcula a umidade exata do barro,
a proporção áurea da palha,
a divisória interna que protege do vento sul.
O joão-de-barro não tem diploma de engenharia,
mas constrói um lar térmico, seguro, à prova de intempéries,
gasta energia para garantir o futuro da espécie.
Embaixo, na calçada cinzenta,
duas pernas sem asas gritam por causa de um time de futebol,
de um boato de rede social,
ou de uma fronteira imaginária desenhada no mapa.
O humano gasta o próprio salário em veneno,
bate o carro na mesma árvore que vê todo dia,
vota no incendiário que queima a sua própria casa,
e assina contratos que garantem a sua própria miséria.
O pássaro molda a argila com inteligência ancestral.
O homem molda o próprio sofrimento com esmero,
sem cobrar lucros, sem colher frutos,
apenas pelo prazer estéril de cavar o abismo
e depois reclamar que caiu dentro dele.

OS SINAIS?