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Existem duas formas de lidar com a lama nesta vida. A primeira pertence ao Furnarius rufus, conhecido na intimidade dos campos como joão-de-barro. Ele acorda cedo, recolhe gotículas de umidade, amassa a terra com a precisão de um ceramista japonês e levanta um duplex térmico com antecâmara e dormitório blindado contra predadores. Não há desperdício de movimento. Cada bicada tem um propósito termodinâmico. Ele constrói para durar, para abrigar, para perpetuar a vida com uma economia de meios que faria inveja a qualquer arquiteto modernista.
A segunda forma de lidar com a lama pertence ao primata sapiens, que, munido de um cérebro avantajado de trilhões de conexões sinápticas, consegue olhar para a obra do pássaro, suspirar diante da genialidade da natureza e, em seguida, entrar no carro, dirigir em zigue-zague alcoolizado para provar um ponto de vista numa discussão de bar, perder o emprego, ofender o melhor amigo por causa de política e terminar a madrugada dormindo na calçada fria, tudo isso sem ganhar absolutamente nada em troca, nem mesmo o troféu de consolação da sensatez.
O pássaro usa o barro para desafiar a gravidade e o clima. O homem usa a inteligência para desafiar a lógica elementar da sobrevivência. Se o joão-de-barro passasse um dia inteiro observando a dinâmica de um escritório corporativo ou de uma briga de trânsito urbana, certamente abandonaria o ninho, desceria do galho e pediria umas aulas particulares de auto-sabotagem. Afinal, construir um forno perfeito para chocar a vida exige instinto; mas destruir a própria casa de graça, aplaudindo o próprio prejuízo, exige um talento artístico que a natureza, em sua infinita sabedoria, jamais conseguiu conceder aos animais irracionais.

OS SINAIS?