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Domingo chuvoso. A cidade inteira parece ter tido a mesma ideia: buscar refúgio no templo sagrado do ar-condicionado e do consumo. As escadas rolantes sobem e descem carregando rostos vagamente hipnotizados pelas vitrines luminosas. Sapatos, bolsas, eletrônicos de última geração que prometem a felicidade em formato de silício e plástico.
Entrei precisando de um casaco e saí com uma aula de antropologia urbana. Observando o fluxo, notei como a publicidade é perita em nos convencer de que somos incompletos. Ela cria a ferida para depois nos vender o band-aid, com juros, claro. O resultado dessa maratona de sacolas e sacolinhas raramente é a alegria duradoura; no máximo, é a euforia breve do cartão de crédito aprovado, seguida logo depois pelo silêncio culpado da fatura que vai chegar no mês seguinte, acompanhada de perto pela ansiedade crônica.
A verdade é que a nossa alma tem uma medida exata que o mercado tenta falsificar. O vazio existencial não se estanca com acúmulo. Ele quer toque, quer conversa jogada fora na mesa de bar até a madrugada, quer o quadro na parede que nos faz suspirar, quer a leitura de um livro bom que reorganiza os pensamentos por dentro.
Quando a cabeça está em paz, a gente percebe que a vida cabe em espaços muito mais simples. Menos metros quadrados de coisas, mais metros de afeto. Afinal, nenhuma sacola cheia abraça a gente numa noite fria, e nenhum extrato bancário substitui o calor de ter por perto quem nos conhece por dentro.

OS SINAIS?