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Inquilino Ausente
A gente passa boa parte da vida adulta fazendo inventário de fantasmas. Não os de lençol branco que habitam porão, mas os eus que deixamos pelo caminho como quem troca de pele à beira da estrada.
Ontem mesmo cruzei com o rapaz que eu era aos vinte anos. Ele estava sentado no muro da praça, fumando um cigarro imaginário e acreditando com fervor inabalável que o mundo se curvaria diante da sua poesia. Dei-lhe as costas. Aquele morreu de tédio numa terça-feira cinzenta, sufocado pelas contas do aluguel e pelas primeiras grandes desilusões.
Mas houve a versão dos trinta, aquela que escapou por uma fresta estreita, largando um casamento moribundo e duas malas no corredor. Essa vive agora em algum lugar da costa, rindo de bota e salitre, livre do peso que eu decidi continuar carregando.
O problema de sobreviver é a logística do afeto com os próprios despojos. Como é que a gente convive com tantas inversões? O otimista de ontem virou o cínico de hoje; o corajoso de antanho agora teme corrente de ar e exame de sangue. Olho no espelho e vejo um consórcio de ausências.
No fim, habitamos um corpo que é uma república federativa de náufragos. Nenhum deles governa sozinho, todos dão palpites na hora do café, e a gente segue fingindo harmonia nessa casa onde o passado mora sem pagar aluguel.

OS SINAIS?