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O Império do Aplauso sem Luz
Antigamente, a mentira precisava se esforçar. Ela mancava com suas pernas curtas, escondia-se nos cantos escuros e morria de vergonha ao ser descoberta à luz do sol. Hoje, não. A mentira ganhou fibra ótica, alta definição, conexão 5G e milhões de seguidores ávidos por consumir qualquer abobrinha que confirme seus próprios preconceitos.
Caminhar pela calçada hoje é assistir de camarote ao banquete da estupidez engravatada. Nas mesas dos poderosos e nas telas brilhantes que iluminam os rostos inertes no metrô, a ignorância deixou de ser um mero vazio de conhecimento, um espaço em branco esperando para ser preenchido pela educação. Ela se transformou em um projeto político muito bem financiado, um modelo de negócios altamente rentável que lucra com o ódio e se alimenta da confusão.
O confronto entre a verdade e a mentira perdeu o pudor e a compostura. Já não se trata de uma mesa de debate onde fatos são pesados, fontes são checadas e argumentos são lapidados. Transformou-se em uma arquibancada de estádio de futebol. As pessoas vestem a camisa da própria ilusão, aplaudem o gol contra a realidade e vaiam qualquer um que ouse sugerir que a bola é redonda. A coerência virou item de colecionador e a lucidez, paradoxalmente, tornou-se o maior e mais perigoso ato de rebeldia que alguém pode praticar nos dias de hoje.
Manter os olhos abertos em meio a essa neblina digital exige uma coragem extenuante. Enquanto a manada marcha em direção ao precipício digital, guiada por algoritmos que trocam o pensamento crítico por dopamina barata, recusar-se a acreditar no absurdo é um exercício solitário. Mas é justamente nessa recusa silenciosa que reside a nossa última e mais valiosa trincheira de humanidade.

OS SINAIS?