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A Servidão Voluntária do Crédito
A porta da loja brilha com luzes frias, refletindo o desespero sutil de quem já nasceu crediado. Sentado no banco da praça, observo o fluxo incessante de transeuntes carregando sacolas pesadas. Carregam compras, mas parecem carregar o mundo nas costas. É a servidão voluntária do século XXI, onde o chicote foi substituído pelo limite do cartão de crédito.
Lembrei-me da frase: não é quem tem pouco que é pobre, mas quem deseja mais. É uma inversão profunda da miséria. A pobreza material impõe limites físicos, mas a escravidão do desejo impõe um cativeiro mental que não conhece trégua. O homem que tem pouco, mas aprendeu a habitar a própria paz, caminha leve. Já o cativo da ambição desmedida vive permanentemente na antecipação do que lhe falta, transformando a própria vida num inventário de carências.
Trabalhamos na semana inteira para pagar o prestígio do fim de semana. Compramos carros maiores para caberem nas garagens que pagamos em trinta anos. Adquirimos armários cheios de roupas que mal usamos, enquanto o tempo, esse sim, o único bem irrecuperável, escorre pelos vãos dos dedos.

OS SINAIS?