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A Corrida e o Destino
Era véspera de um feriado prolongado e a decisão estava tomada: mala no porta-malas, família acomodada e rumo a Caldas Novas. No dia seguinte, logo cedo, pegamos a estrada. Antes de encarar as horas de viagem, parei em um posto de combustível para completar o tanque.
Enquanto a bomba registrava os litros, um carro encostou logo atrás. Para minha surpresa, era um velho conhecido de infância e dos tempos de serviço militar. Ao me ver, desceu com a mesma postura de sempre: o peito estufado, o sorriso carregado de prepotência e a necessidade constante de se afirmar.
— Está indo pra onde? — perguntou, já destilando aquela superioridade artificial que lhe era peculiar.
— Estou indo para Caldas Novas — respondi com simplicidade.
— Mas você pretende chegar ainda hoje com esse carrinho aí? — disse, desferindo uma olhada de descaso para o meu veículo.
— Espero que sim — respondi com total tranquilidade, sem morder a isca.
— Olha só a minha caminhonete. Isso sim é carro! — gabou-se, apontando para a carcaça brilhante. — Então até a noite, quem sabe a gente não se esbarra por lá.
Terminei de abastecer em paz, enquanto o via arrancar cantando pneus, levantando uma pequena nuvem de poeira e pressa.
A viagem pela rodovia transcorria em ritmo agradável. No meio do percurso, era de praxe fazermos uma pausa para um café em um posto movimentado, ponto de parada obrigatório para quem segue em direção a Anápolis, Goiânia e, por fim, Caldas Novas. Ao entrar no pátio, vi a caminhonete dele estacionada de qualquer maneira. Ele desceu apressado, quase correndo em direção à lanchonete, visando pegar a comanda e a fila na frente de todos, como se estivesse disputando uma olimpíada invisível.
Cheguei com calma, de mãos dadas com minha família. Fizemos tudo no nosso tempo: fomos ao banheiro, respiramos o ar fresco e entramos na fila com serenidade. Notei que ele engolia o café às pressas, olhando para o relógio a cada dois minutos. Assim que terminamos, seguimos viagem.
Chegamos a Caldas Novas logo depois do meio-dia, bem a tempo de almoçar no nosso restaurante predestinado na cidade. Ao entrar no estacionamento, qual não foi minha surpresa ao ver a caminhonete dele sendo manobrada com aquela mesma urgência atabalhoada, parecendo quase tentar disfarçar o fato de que acabara de estacionar. Sorri discretamente, ignorei o teatro e fui almoçar com a minha família.
Mais tarde, após o almoço, fomos nos registrar no hotel. Ao nos aproximarmos da recepção, demos de cara com ele na fila do check-in, visivelmente esgotado pelo estresse da viagem. Ao nos ver, ele esboçou um sorriso amarelo, misto de incredulidade e embaraço:
— Até para um carrinho velho, você andou rápido, hein? — disparou, tentando recuperar o controle da situação.
Olhei para ele, ajeitei a bolsa no ombro e respondi com a serenidade de quem não tem nada a provar:
— Só ando no meu ritmo. Nunca tenho pressa. Dirijo com respeito e responsabilidade, preservando a minha vida e a da minha família. A potência do meu carro eu uso com inteligência e no limite econômico, garantindo a segurança e prolongando a vida útil dele. A estrada é para ser vivida, não vencida.
Ele ficou sem graça, sem argumentos diante da lógica simples de quem havia chegado exatamente no mesmo momento, mas sem gastar a saúde física e mental no processo. Despedi-nos educadamente e seguimos para o quarto, certos de que a melhor viagem é aquela que se faz em paz.