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Anatomia do Eco
Eles temem o poema
porque o poema não cabe nos arquivos da polícia.
O historiador anota a data exata da queda das muralhas,
o nome dos generais,
o número exato de moedas roubadas.
Mas o poeta, ah, o poeta entra na fenda invisível da alma,
onde o medo tem cheiro de cinza
e a liberdade tem gosto de mar.
Por isso a bota pesada esmaga a garganta.
Cortam a língua que ousou dizer
o que o tirano tenta esconder no escuro:
que todo trono é frágil,
que toda opressão tem prazo de validade,
que o homem nasceu para o infinito e não para o cárcere.
Quebram os dedos do artista,
incendeiam os livros,
espalham o corpo ao vento.
Tolice.
O verso escapa pelos poros da terra.
Vira chuva que molha a praça,
vira grito preso na garganta do povo,
vira semente que teima em florir
mesmo sobre o cimento armado da censura.

OS SINAIS?