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O Canto Incerto
O direito de ser o próprio porto
Há uma exaustão silenciosa em viver tentando traduzir a própria alma para uma língua que o mundo entende. O mundo quer sempre o veredito: de que lado você está? Qual é a sua bandeira? Qual deus o abençoa? Qual sistema você aplaude ou combate?
Mas chega um momento na vida em que a gente descobre que a maior rebeldia não é o grito na praça, é o silêncio da porta fechada para o barulho alheio.
Eu não quero mudar o sistema. Ele é grande demais, barulhento demais, e, francamente, tem vida própria. Mudar o outro, então, é uma ilusão de ótica que consome a energia que deveria ser gasta em viver. Também não quero desviar do meu caminho para caber nas expectativas de quem quer que seja, nem erguer palanques para defender divindades ou ideias como se a vida fosse um tribunal permanente.
O que eu quero é caber em mim.
Quero a liberdade modesta de sentar à mesa com os meus próprios pensamentos, sem a obrigação de dar satisfação ao espelho do mundo. Nos meus versos, eu não busco a aprovação da crítica; nos meus escritos, não procubo adeptos. Procuro apenas abrigo.
Que o mundo continue girando em seu eixo de certezas absolutas. Eu prefiro o meu canto incerto, onde posso ser inteiro, sem precisar provar nada a ninguém.

OS SINAIS?