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A gente costumava achar que a separação entre Igreja e Estado era uma daquelas conquistas históricas tão sólidas quanto a roda ou a escrita. Algo que a civilização já tinha assinado embaixo, carimbado e guardado na gaveta do progresso. Mas bastou descuido para percebermos que o passado adora voltar disfarçado de novidade.
O dominionismo não se anuncia com fogueiras medievais. Ele chega com planilhas de excel, estratégias de marketing digital, bancadas organizadas e discursos apaixonados sobre "resgatar a nação". O plano é sedutor para quem vê o mundo em preto e branco: conquistar as chamadas esferas da sociedade, política, economia, educação, mídia e cultura, e moldá-las à imagem e semelhança de uma interpretação religiosa específica.
O problema é que, num país plural, quando um grupo decide que os seus valores particulares devem virar lei universal, a liberdade de todo o resto da sociedade começa a murchar. O Estado laico não existe para combater a religião; pelo contrário, ele existe justamente para garantir que qualquer pessoa possa crer (ou não crer) em paz, sem que o credo do vizinho se transforme em exigência policial.
O alerta que fica para o nosso dia a dia é urgente. A erosão das instituições não acontece de uma só vez com um golpe estrondoso; ela se dá gota a gota, no silêncio da tolerância cúmplice, quando trocamos o debate democrático pelo decreto moral. Cuidar do Estado laico é cuidar da nossa própria respiração. Porque, no dia em que a cruz ditar a lei, a fé deixa de ser graça e passa a ser coleira.

OS SINAIS?