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No coração do sertão bragal, onde o tempo parece andar a passos de cágado e o sol racha a terra com braço forte, a vida corria mansa entre duas únicas ruas de poeira e casas de taipa. Bem no meio, erguia-se a igrejinha de santo padroeiro, singela e branca. Lá no finzinho da rua poeirenta, ficava a bodega do Seu Zé, ponto de encontro onde o mundo parava para prosear e tomar uma "bicada" de cachaça contra a poeira da garganta.
Na frente da bodega, cravado no chão batido, havia um monumento secular do sertão: o Poste de Paciência. Era uma trave de aroeira grossa, encerada pelo tempo e pelo lombo de tantos animais, feita justamente para prender o bicho enquanto o cristão proseava lá dentro.
Foi ali que chegou um vaqueiro montado num cavalo de raça, pelagem reluzente, arreios de couro cru trabalhados à mão. Um verdadeiro fidalgo da caatinga. O vaqueiro desmontou, ajeitou o chapéu de couro, jogou as rédeas frouxas, de qualquer jeito, em cima do poste de aroeira e entrou para tomar sua dose. O cavalo, de cabeça erguida e postura nobre, ficou plantado, imóvel, esperando.
Não demorou muito para que um jumento cabisbaixo, mas de orelhas sempre atentas, se aproximasse arrastando as patas. Preso a poucos metros por uma corda grossa atada a um anel de ferro, o jegue olhou de soslaio para o alazão e puxou conversa, destilando a sua astúcia:
— Ei, compadre! Presta atenção cá na minha prosa, deixa eu te falar uma coisa de amigo...
O cavalo, bufando impaciente com o calor, respondeu secamente:
— O que é que você quer, comadreja? Me deixe em paz.
— Homem dos céus, você já reparou na sua sorte? Você está solto! Soltinho da Silva! — cochichou o jumento, com os olhos brilhando de malícia. — Olhe bem para o alto. Seu dono nem nó cego deu. Só jogou a rédea em cima da estaca. Se você der dois passos para trás e sacudir a crina, a rédea escorrega e você some na caatinga. É liberdade pura, camarada!
O cavalo virou o pescoço soberbo, olhou para a rédea solta e, em seguida, fitou o jumento com desdém:
— Quem foi que te disse que eu quero sumir por aí? Eu tenho rumo, tenho dono, tenho honra. Estou bem aqui cumprindo o meu dever.
— Dever?! — espantou-se o jumento, balançando a cabeça. — Você chama ficar em pé, secando ao sol quente, de dever? Olha para mim! Eu estou preso porque meu dono não confia em mim, mas se eu tivesse a metade da sua liberdade... oh, rapaz, eu já estaria lá no pasto verde comendo capim mimoso longe daqui. Você tem a força de um touro, mas aceita ser escravo por mera ilusão.
O cavalo, já estressado com a tagarelice, bateu o casco no chão levantando uma nuvem de poeira:
— Fica na tua, orelhudo! A minha obediência é a minha força. O meu dono cuida de mim, me dá milho, água fresca e respeito. A sua esperteza só te serve para viver amarrado e reclamando da vida. Me deixe em paz!
E, ali o cavalo permaneceu, firme e obediente, até o vaqueiro sair da bodega, montar e seguir viagem. O jumento ficou para trás, balançando a cabeça, pensando que o mundo é mesmo cheio de mistérios: alguns preferem a segurança da corrente invisível, enquanto outros esperam apenas um segundo de descuido para conquistar o próprio destino.