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Houve um tempo em que abrir um livro era entrar em um quarto silencioso com uma pequena vela. Ninguém perguntava quantas páginas você já havia queimado naquela semana, nem se a sua escolha literária estava alinhada com as tendências da estação. A leitura pertencia ao território sagrado do íntimo.
Hoje, as prateleiras viraram palcos. O leitor foi transformado em atleta de maratona e o escritor, muitas vezes, cobrado a ser um gerente de engajamento da própria alma. Mas felizmente existem brechas. Nos refúgios onde a criação respira livre, seja na cadência de um autor ou na profundidade de uma autora, a literatura continua a ser o que sempre deveria ter sido: um pacto de cumplicidade mútua entre quem escreve e quem lê, sem plateia e sem crachás.
Escolher o analógico não é um capricho de quem odeia o presente, mas um gesto de legítima defesa. É o direito de ler um livro poeirento encontrado num sebo, de abandonar uma leitura na página trinta sem achar que falhou com o universo, de não ter uma opinião pronta para entregar ao tribunal digital.
No fim das contas, a arte só sobrevive onde o vento sopra sem barreiras. Entre a folha em branco e a estante de casa, o que realmente importa não são as métricas, mas o eco silencioso de uma história que nos encontrou de mãos dadas com a liberdade.

OS SINAIS?